18/02/2026 11:59 |
Aumento da demanda por energia elétrica acelera adoção de alternativas
A recuperação da produção agropecuária em 2025 trouxe junto um efeito menos visível, mas cada vez mais relevante para o produtor: o aumento do consumo de energia dentro das propriedades. Com a safra de grãos voltando a superar 320 milhões de toneladas e o setor mantendo participação próxima de 23% a 24% do PIB brasileiro, segundo estimativas do Cepea/Esalq/USP em parceria com a CNA, a eletricidade passou a ocupar papel semelhante ao de insumos tradicionais — como fertilizantes e diesel.

O avanço da atividade explica a pressão sobre a infraestrutura. A modernização produtiva transformou o perfil energético das fazendas. Sistemas de irrigação, armazenagem com aeração, secagem de grãos, ordenha automatizada, confinamentos climatizados e conectividade rural elevaram a dependência de fornecimento contínuo. A energia deixou de ser apenas um custo operacional e passou a interferir diretamente na produtividade e no risco econômico.

Estudos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) mostram que a carga elétrica rural cresce acima da média em regiões de expansão agrícola, especialmente no Centro-Oeste e no Matopiba, onde as áreas produtivas ficam distantes dos grandes centros consumidores e da infraestrutura de distribuição. Na prática, interrupções de energia passaram a gerar perdas imediatas: paralisação de pivôs de irrigação, descarte de leite por falha de refrigeração, mortalidade em granjas e deterioração de grãos durante secagem e armazenagem.

O impacto ocorre em um setor que voltou a ganhar peso macroeconômico. Dados mais recentes indicam que o PIB da agropecuária brasileira acumulou crescimento de 11,6% nos três primeiros trimestres de 2025 na comparação com igual período do ano anterior, refletindo recuperação produtiva após as perdas climáticas registradas em 2024 e a recomposição da oferta de grãos.

Como resposta, produtores passaram a investir em geração própria. Dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) indicam expansão acelerada da geração distribuída fotovoltaica em propriedades rurais. A energia solar se difundiu principalmente em fazendas irrigadas e unidades de armazenagem, onde o consumo diurno coincide com a geração. O retorno do investimento costuma ocorrer entre quatro e sete anos, reduzindo a exposição às variações tarifárias.

Outra alternativa crescente é o biogás. Pesquisas da Embrapa apontam grande potencial de geração a partir de resíduos da pecuária intensiva. Dejetos de suínos, bovinos confinados e aves podem ser convertidos em eletricidade e biometano, permitindo ao produtor reduzir gastos energéticos e, ao mesmo tempo, resolver passivos ambientais. Em algumas propriedades, o combustível já abastece motores estacionários, aquecimento e equipamentos da própria fazenda.

Mais recentemente surgiram sistemas híbridos, combinando painéis solares, geradores e armazenamento em baterias. O objetivo é garantir funcionamento contínuo de atividades sensíveis, independentemente de falhas na rede. A tecnologia ganhou viabilidade econômica com a redução de custos: relatório da Agência Internacional de Energia (IEA) mostra que o preço das baterias de íon-lítio caiu mais de 85% entre 2010 e 2023, ampliando o uso em aplicações estacionárias.

A expansão da irrigação também impulsiona essa mudança. A área irrigada brasileira já supera 8 milhões de hectares e continua avançando, elevando a demanda por energia estável e previsível. Em culturas de alto valor, a falta de eletricidade durante períodos críticos pode comprometer produtividade e qualidade.

O tema passou a influenciar inclusive crédito e mercado. Linhas de financiamento rural e programas ambientais priorizam projetos com eficiência energética e menor emissão, enquanto compradores internacionais valorizam cadeias produtivas com menor pegada de carbono.

Com maior mecanização e digitalização, a energia tornou-se componente estratégico da produção. Para o produtor, a conta não envolve apenas economia na tarifa elétrica, mas continuidade operacional, proteção contra perdas e estabilidade de renda. Em um agro cada vez mais dependente de tecnologia, segurança energética passou a ser fator de competitividade.

Fonte: Pensar Agro

Foto: Pensar Agro

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